quarta-feira, 21 de agosto de 2013

de Antônio para Bia



...  atacado por uma aglomeração de vozes pelo centro da cidade com seus tons conflitantes e destoantes, Antônio recusa-se em não pensar em Bia. Ela ainda é vislumbrada pelo seu bom pensamento, enquanto a fina chuva insistia em sua queda ininterrupta.

Antônio pausa, pousa, sorri. invoca poema:


Chuva santa que me cativas
Que transforma gotas em silabas
Palavras em versos...
Um rito solene, um beijo que aquece
Vestígio vestido de prece
Que exala oração da saudade

Perfume
Doce, lá... do de fora de dentro
Meu âmago pelas alturas.


Didiu 2013

domingo, 11 de agosto de 2013

Bia escreve poesias



Longe de Antônio, Bia escrevia poesias:

Rumores de cartas escritas
De beijos tatuados
De vozes pelos cantos, nas dobraduras das esquinas com suas luzes de cor amarelas feitas um sol morno e mole
... e o pensamento cozido
Pronto pra ser servido
E consumido num prato de porcelana com uma rosa vermelha e outra púrpura

Rumores chegam de toda parte

E se espalham...
E se misturam numa simbiose
Olhares híbridos.

Bia encheu os olhos com sorrisos largos dando uma piscadela para o retrato de Antônio deitado sobre a mesa diante da vidraça rabiscada pela chuva, que ainda caia lá fora, debruçou sobre seu imaginário para tecer mais versos. E ela fugiu pela sua janela com os pés descalços, levando sua mala e seu guarda-chuva... submergiu transcendendo.

Do outro lado da cidade, Antônio dormiu sonhando sonho bom. Ele deixava pétalas pelo caminho.

Didiu 2013

domingo, 4 de agosto de 2013

Sapatilhas







Ela dançou silenciosamente em preto e branco

Pôs-se no pôr do sol, se deixou levitar...

Excitou-se, levantou

Sorriu assim, de um jeito nas pontas dos pés

Visitou as nuvens com olhos atentos, abertos pra mim

Eu a vi de longe

Ofegante pela dança... e aquela música com arranhaduras

Pela noite... e o entardecer pela madrugada



Dançou



Fez-se... se refez



E lá fora enquanto todos contavam passos ela dançou silenciosamente



Eu a vi de perto me acenando com os olhos fechados em seu esconderijo.



Didiu 2013
2013



quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Abril



Eros permitiu
E sob teu consentimento fez-se... quão mágica brisa suave tateando a flor da pele
O poema, o beijo, a música bela que fazia incitar cadenciando o verso
O íntimo dos olhos, a amada alma, o âmago
A presença, o presente, o pedido atendido

Eros permitiu

Escreveu num sonho a lembrança
Páginas e páginas, nas folhas de outono, no ritmo da chuva fina fria
Não fez pra doer, nem quis rasgar, despedaçar pétalas, seu querer se fez maior, entretanto, a lágrima caiu moldando o sereno, o pranto. As luzes se foram, ofuscaram-se com o tempo no caminho da volta furtando os segundos, os minutos seguintes. O silêncio sobre o asfalto descoloriu o tom e sem poder dizer o bom que foi, fez mais um poema que dentro dele pousou sentindo constrangimento, se escondendo cabisbaixo, mas loucamente ansioso para se revelar e tornar-se saudade com gosto doce de uma aurora que devora nuvens brancas aonde habitam todos os anjos.  Toda reviravolta em seu pensamento removia os manhosos moinhos que insistentemente trituravam-no reduzindo e fazendo dele pequeninos grãos de letras, partículas frágeis e solúveis, prestes a desaparecer em qualquer copo de café forte ou de uma bebida agridoce.
O beijo dela ainda o despertava condensando-o por horas e horas. Aquele momento poderia voltar, era sem duvidas seu desejo, um belo retorno com augusta sensação agradabilíssima quão canto dum querubim ou poema dum poeta romancista do século XVIII.
Singeleza de uma mademoiselle de Vila Rica com seus atributos encantadores faz dele um contemplador, um galanteador a fim de conquistá-la, trazê-la definitivamente aos seus braços, conduzi-la quiçá a uma dança lenta, ou porventura, a uma valsa vienense. Seria um só corpo envolvido e conduzido pela harmonia da bela musica com seus tons suaves. Tonalidades que provocariam efervescência aos corpos entregues a um delírio comovido.
Todos seus desejos são esculpidos, talhados por ela, por aquele par de olhos semelhante pedras preciosas tal qual aquelas cobiçadas pelos navegadores de barbas longas do além-mar.
Ela torna-se obra-prima diante dele e de seus fiéis pincéis em punho permitindo-o realizar sonhos representados confortavelmente em suas telas. Tintas modelando aquele rosto de menina mulher que quando os olhos se fecham consegue tocá-la, sentindo toda a quentura de corpo e alma.Uma historinha romântica construída por ele, e se o perguntassem quem seria ela, logo responderia com imponente voz:

_ Minha mais bela poesia!

Ele se faz sempre acompanhado de alguns livros, literaturas, todo seu dialetismo, pensamento metafísico que o permeia, permeia seu ser, imaginário mundo de sereias com asas de butterfly, palavras que dialogam entre si, sua Deusa utopia progenitora de suas ideias, mesmo as mais absurdas das ideias. Permite esferas flutuarem pelo deserto donde não habitam camelos, nem dromedários. Um amarelo submarino e ela, a mademoiselle de Vila Rica, com sua vermelha flor desabrochada em seus longos cabelos de ouro. Uma rosa que ele ainda tece para ela, e suas mãos sujas de tintas na dança louca dos seus fiéis pincéis, enquanto do lado de fora o tempo move, remove secas folhas dispersas e adormecidas pelo chão corrompido pela sujeira cansada, velha e translúcida.

Didiu 2013
 2013