quinta-feira, 19 de novembro de 2009

ADORÁVEL CADELA






Sem pudor e aos delírios, ela atravessou a rua
cantarolando em sua memória uma música suave com a fragrância de gardenias.
Desvinculada e despreocupada, trazendo o deboche em seu olhar malicioso
ela acenava cordialmente em cumprimento cativando a todos que passavam por ali
Seguia a passos lentos com toda sua indiscutível elegância
a que se orgulhava muito.
Trazia consigo confortavelmente protegida em seus braços uma aparentemente
inofensiva adorável cadela.
Era uma horrível e peluda pequinês com seus afiados e enormes dentes de vampiro que gotejava sangue.
Aquela cadela despudorada fizera mais uma vítima. Mordera a perna de mais um
pacato cidadão que fazia sua habitual caminhada por aquelas redondezas.


DIDIU 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009

VERSOS DISPERSOS




Fotografias não reveladas revelam o desprazer do inconsistente
Do acaso
Da luz opaca
Da súbita subjetiva relatividade

Negativos soltos e dependurados
Gotejando cores e rumores
De um mundo retratado por lambe-lambes
Das velhas praças dos muitos velhos
Crianças, contempladores e enamorados

Visto a velha praça
Calço homens e mulheres que se ajoelham em oração e prece

Suplício no templo sagrado

Renego a flor que não brotou

Primavera em meus olhos!

E a bailarina dança
Com seus cabelos cacheados
Reunindo todos aquelas versos
Que estavam dispersos.

Didiu 09


quinta-feira, 16 de julho de 2009

PARTO



Sólida e progenitora
O obscuro e a luz
Bela e prenha
Não ouve choro, lágrima ou dor
Surgiu em silêncio

Apaguei a luz

Ela calma e sorridente dando gargalhadas
Sonora míngua
E agora descansa a sólida progenitora
Sob a luz dos quase loucos poucos muitos poetas

Quantos sois, quantas luas!
Quantas republicas e monarquias!
Quantos castelos no medievo!
Quantos socráticos e pré-socráticos!

Não sou Tales de Mileto!
Não estudei a medida do tempo utilizando o relógio solar
Apresentaram-me o formatado

Meu tempo pela janela
Contemplando minha adorável maiêutica.

Didiu 2009

quarta-feira, 8 de julho de 2009

DITO



Digito a digital dos dedos
Indícios
Digito a digital dos versos
Implícitos
Observo o tempo frio e suas nuances
O grito das cirandas e amarelinhas
Contra-gotas, gotas, a boêmia
O pássaro azul de origame
A volta ao mundo em 80 dias
África, Europa, Ásia, Américas, Oceânia

América Latina!

Digito os números, as senhas...
Não decifro os complicados códigos
Minha embarcação é clandestina

Sou rei, fidalgo, marquês, conde e visconde
O bobo da corte!
Meu castelo é de cartas
Embaralhadas, atrapalhadas

Pace e luce!

Digito o apreciável dito
O mito, o ditado popular
O dito pelo não dito.

Didiu 2009



terça-feira, 7 de julho de 2009

POTOSÍ



Calmo...
Depois que a chuva passou
Devoro uvas vermelhas e verdes
O silêncio me traz algo
Estou em 1688 na velha Potosí
Com sua torrente de prata
Seus poetas, contadores de histórias
Escravos negros e criados índios

Escrevo poesias...

Já imaginei um encontro entre dois pontos
Interrogação - Exclamação
Um diálogo, um conto

Olhos fechados

Vislumbrando cores e imagens
Olhos atados
Sinto-me pele
Numa efervescência desvairada

Corpos colados
Cartas manuscritas
Cartas datilografadas
Contemplando flores subjetivas
Refazendo-me na exuberância das riquezas da velha Potosí.


Didiu 2009

terça-feira, 30 de junho de 2009

ESCRITOS



Alguns escritos saem por aí

Em busca de aventuras

Soltos e revoltos

Se embriagam em abstrato

Poesia concreta em marcha lenta

Ao vento, ao relento

Suplicando em esgotamento


Alguns escritos não saem por aí

Enclausurados refazendo-se

Mergulham na solidez

Tornam-se fortes, colossais

Entregam-se ao óbvio numa pintura íntima e subjetiva


Quantos pontos, reticências e vírgulas!

Figuras retóricas no final de qualquer frase


Etecétera e etecétera


Por que sou poeta?

Talvez pelo fato de não ter mais o que fazer

Talvez pelo fato de não me tornar seres iguais a vocês.

Didiu 2009

segunda-feira, 29 de junho de 2009

LAVOURA ARCAICA



Eu me vi bem ali
Na primeira cena
No primeiro ato
Com a velocidade e a força de uma locomotiva
Um cargueiro a todo vapor prestes a descarrilar
E em minutos... o estrondo!
Estardalhaço de volúpias
As cores de uma lavoura arcaica tomaram conta de mim
Por alguns instantes meus pés continuaram grudados
Deliciando-se em desejos que ainda me purificavam
Minha boca sentia o gosto libido
Belo e doce fervor que me entorpecia
E em uma prece, deitei-me de lado
Faminto...com uma fome visceral que de alguma forma me fazia sorrir

Tempo...
Tempo...

Porque tu és o efêmero tempo!
Senhor, dono do passageiro que não cessa no passar.

didiu 2009