
Fotografias não reveladas revelam o desprazer do inconsistente
Do acaso
Da luz opaca
Da súbita subjetiva relatividade
Negativos soltos e dependurados
Gotejando cores e rumores
De um mundo retratado por lambe-lambes
Das velhas praças dos muitos velhos
Crianças, contempladores e enamorados
Visto a velha praça
Calço homens e mulheres que se ajoelham em oração e prece
Suplício no templo sagrado
Renego a flor que não brotou
Primavera em meus olhos!
E a bailarina dança
Com seus cabelos cacheados
Reunindo todos aquelas versos
Que estavam dispersos.
Didiu 09
Sólida e progenitora
O obscuro e a luz
Bela e prenha
Não ouve choro, lágrima ou dor
Surgiu em silêncio
Apaguei a luz
Ela calma e sorridente dando gargalhadas
Sonora míngua
E agora descansa a sólida progenitora
Sob a luz dos quase loucos poucos muitos poetas
Quantos sois, quantas luas!
Quantas republicas e monarquias!
Quantos castelos no medievo!
Quantos socráticos e pré-socráticos!
Não sou Tales de Mileto!
Não estudei a medida do tempo utilizando o relógio solar
Apresentaram-me o formatado
Meu tempo pela janela
Contemplando minha adorável maiêutica.
Didiu 2009
Digito a digital dos dedos
Indícios
Digito a digital dos versos
Implícitos
Observo o tempo frio e suas nuances
O grito das cirandas e amarelinhas
Contra-gotas, gotas, a boêmia
O pássaro azul de origame
A volta ao mundo em 80 dias
África, Europa, Ásia, Américas, Oceânia
América Latina!
Digito os números, as senhas...
Não decifro os complicados códigos
Minha embarcação é clandestina
Sou rei, fidalgo, marquês, conde e visconde
O bobo da corte!
Meu castelo é de cartas
Embaralhadas, atrapalhadas
Pace e luce!
Digito o apreciável dito
O mito, o ditado popular
O dito pelo não dito.
Didiu 2009
Calmo...
Depois que a chuva passou
Devoro uvas vermelhas e verdes
O silêncio me traz algo
Estou em 1688 na velha Potosí
Com sua torrente de prata
Seus poetas, contadores de histórias
Escravos negros e criados índios
Escrevo poesias...
Já imaginei um encontro entre dois pontos
Interrogação - Exclamação
Um diálogo, um conto
Olhos fechados
Vislumbrando cores e imagens
Olhos atados
Sinto-me pele
Numa efervescência desvairada
Corpos colados
Cartas manuscritas
Cartas datilografadas
Contemplando flores subjetivas
Refazendo-me na exuberância das riquezas da velha Potosí.
Didiu 2009
Alguns escritos saem por aí
Em busca de aventuras
Soltos e revoltos
Se embriagam em abstrato
Poesia concreta em marcha lenta
Ao vento, ao relento
Suplicando em esgotamento
Alguns escritos não saem por aí
Enclausurados refazendo-se
Mergulham na solidez
Tornam-se fortes, colossais
Entregam-se ao óbvio numa pintura íntima e subjetiva
Quantos pontos, reticências e vírgulas!
Figuras retóricas no final de qualquer frase
Etecétera e etecétera
Por que sou poeta?
Talvez pelo fato de não ter mais o que fazer
Talvez pelo fato de não me tornar seres iguais a vocês.
Didiu 2009
Eu me vi bem ali
Na primeira cena
No primeiro ato
Com a velocidade e a força de uma locomotiva
Um cargueiro a todo vapor prestes a descarrilar
E em minutos... o estrondo!
Estardalhaço de volúpias
As cores de uma lavoura arcaica tomaram conta de mim
Por alguns instantes meus pés continuaram grudados
Deliciando-se em desejos que ainda me purificavam
Minha boca sentia o gosto libido
Belo e doce fervor que me entorpecia
E em uma prece, deitei-me de lado
Faminto...com uma fome visceral que de alguma forma me fazia sorrir
Tempo...
Tempo...
Porque tu és o efêmero tempo!
Senhor, dono do passageiro que não cessa no passar.
didiu 2009


Fabriquei versos...
Construi contos e poesias
Fui parar na lua
-Daqui de cima até que é legal!
Não vi pegadas, nem bandeira alguma tremulando
Nenhum indício, pistas de uma ainda guerra fria
A lua é um bem comum para todos
Mas ainda pertence aos poetas.
Didiu 2009